4 de dez. de 2017

Partolândia | Eu estive lá e você?


Você nunca ouvi falar na Partolândia?? Se você entrou em trabalho de parto ativo, pode ter viajado pra lá e nem saiba disso! 

Chega uma fase do trabalho de parto que já não controlamos mais nossas emoções, perdemos a noção do tempo, de quem está a nossa volta e até piramos com toda a intensidade de tudo o que sentimos. 

Para entender melhor, compartilho com vocês um texto maravilhoso que explica o que é a Partolândia:

"O TP deve ser comparado às necessidades básicas (principalmente dormir e fazer sexo) porque é igualmente regido pelo hipotálamo. Quando nos deixamos levar pelo TP em si sem nenhuma interrupção externa, sem nenhuma intervenção, somos automaticamente levadas á partolândia. Portanto, a partolândia nada mais é do que um estado de consciência que permite à mulher se comportar de maneira instintiva. A introspecção é o primeiro sintoma e isso pode começar dias antes quando a mulher começa a não querer participar de eventos coletivos e prefere ficar em um ambiente que julga seguro (na maioria das vezes sua própria casa) esperando a hora chegar. Quando o TP se inicia, a introspecção começa a ficar mais evidente mostrando a necessidade de fazer uma viagem para dentro de si.

Em muitos relatos de parto natural (sem intervenções) observo que as mulheres começam contando detalhadamente cada acontecimento e conforme o relato é desenvolvido, os detalhes vão se perdendo. Isso se deve à mudança de estado de consciência dessas mulheres que acabam por se desligar do mundo externo e entrar na partolândia onde apenas sensações são registradas e os pensamentos são quase inexistentes. Muitas vezes não se lembram quem estava presente, o que falaram. Apenas as sensações são descritas e eu nunca li ou ouvi nada parecido com sofrimento. Assim como quando dormimos ou temos um sexo satisfatório que nos leva a um orgasmo.



Eu pirei na Partolândia. Senti calor, frio, vontade de gritar! Uma montanha russa de emoções e ações."
Flávia Marques



Há tempos já se sabe as principais substâncias secretadas durante a estadia na partolândia. No entanto, sabia-se apenas suas funções fisiológicas e que suas quantidades se modificam em cada estágio do TP. A ocitocina é responsável pela contração e a dilatação uterina. É a primeira a ser secretada no TP. As endorfinas atuam como analgésicos naturais relaxando a musculatura esquelética e diminuindo as sensações dolorosas. A adrenalina torna a atividade de expulsão do feto, no final do TP, mais eficaz. Hoje já se sabe que a atuação dessas substâncias vai além do físico alterando o comportamento, o que pode facilitar o entendimento das necessidades da parturiente e inclusive saber quanto seu útero está dilatado apenas observando como ela se comporta evitando, assim, toques desnecessários que podem tirar a mãe da partolândia.

Nota-se que nos partos naturais, logo após o nascimento, a mulher tende a posicionar-se de joelhos ou a sentar-se. Esta liberação de adrenalina é favorável aos mamíferos em geral, pois coloca a fêmea em situação de alerta. O bebê recebe parte desses hormônios do parto e, ao nascimento, está com as pupilas dilatadas. Ambos, o bebê e a mãe, possuem então condições fisiológicas para o contato olho no olho, fundamental na espécie humana.

A ocitocina é chamada de hormônio do amor por estar presente durante o orgasmo. Assim como no parto, a mulher não consegue chegar às vias de fato se não se entregar e se desligar do mundo externo. E só há entrega se ela estiver se sentindo à vontade e segura, num ambiente que propicia a concentração. Durante o orgasmo, assim como no TP, a ocitocina promove a contração uterina e é por todas essas semelhanças que dizemos que o parto faz parte da vida sexual dessa mulher. Portanto, o ambiente adequado pra ela parir é semelhante ao que ela considera ideal para fazer sexo. Um ambiente inadequado pode gerar inibição, medo, irritação e outras sensações desagradáveis que a fazem liberar adrenalina. Nesta fase do TP, a adrenalina compete receptores sensoriais com a ocitocina, o que quer dizer que a adrenalina inibe o efeito da ocitocina retardando o TP e aumentando a dor. A partir do momento em que o bebê nasce, a taxa de ocitocina na mulher chega ao seu ápice e é passada para o bebê através do cordão umbilical. Desse modo, ao se olharem, mãe e filho criam um vínculo forte que acelera o estabelecimento de uma interdependência que mais tarde culmina no amor entre os dois.


"Fiquei dentro de mim, sentindo tudo e tentando lidar com toda aquela dor."
Marina Barbalioli


A ação das endorfinas é potente. Até a mulher atingir 8cm de dilatação a dor vai aumentando, porém continua suportável. A função da dor é estimular a secreção das endorfinas que trarão uma sensação prazerosa e concomitantemente a diminuição da dor. Principalmente se a secreção e propagação de endorfinas forem aceleradas através do relaxamento muscular e da dilatação dos vasos sanguíneos. Pra isso, existem métodos como massagem e água quente na região lombar.Se um estímulo externo tirar a parturiente da partolândia causando susto, constrangimento ou medo, ela liberará adrenalina que tem ação vaso-constritora dificultando a chegada das endorfinas, o que aumenta consideravelmente a dor. A partir da dilatação total (10cm), a maioria dos relatos revela que a dor diminui, isso comprova que a secreção de endorfinas já está a todo vapor. São opiáceos da família da morfina que não só tiram a dor mas ajudam a mulher a entrar nesse estado de consciência alterado e prazeroso. Hoje é sabido que o bebê também já secreta suas endorfinas e experimenta sensação semelhante durante o parto.

Com dilatação total, a ação da adrenalina se torna importante para a fase expulsiva do TP. Sua secreção nesse momento permite a ejeção. No sexo é responsável pela ejaculação, na amamentação é responsável pela ejeção do leite e no parto é responsável pela expulsão do bebê. A mulher se torna atenta, algumas vezes agressiva na medida exata para finalizar o TP e para cuidar de seu bebê assim que ele nasce. É comum ainda um estado de euforia devido às endorfinas combinado com a sensação de extrema energia e alerta importantes nesse momento. A dor simplesmente não existe mais. Os relatos são unânimes."
Fonte: Renata Olah

Como diz o título dessa postagem, eu estive lá e lembro de pensar que estavam me enrolando (na fase da covardia, onde eu pedia pra chamar o anestesista), lembro de ficar muito zangada com a Fabíola (minha doula) por me oferecer um mel quando eu queria que acabasse aquilo tudo (rsrs..), lembro de pensamentos longos mas que eu não conseguia externar pra Fabi por mais que eu quisesse, mas segundos depois meus pensamentos ficavam desconexos. muito louco de explicar! Só depois que fomos para o quarto, horas após o nascimento da Linda, é que eu percebi como eu tinha perdido a noção de tempo. Nem do meu marido eu lembrei! Tudo é tão animalesco, profundo... surreal!


Esse foi o momento que eu me conectei com o meu corpo. Ali não havia mais nada ao meu redor, apenas a vontade de trazer a minha filha e todo o meu instinto animal trabalhando pra trazê-la.
Priscila Martins 


A natureza é linda e sábia! Quando nos entregamos ao trabalho de parto de corpo e alma, nosso corpo trabalha para que nos concentremos no que realmente é importante: o caminho que se abre para a chegada do nosso bebê! <3 
Se posso dar uma dica para quem está se preparando para parir, dou este: prepare seu emocional e sua equipe (marido, doula, médicos) para que você possa ficar sem preocupações durante o trabalho de parto e se entregue totalmente aos seus instintos. Seu corpo sabe parir. Seu bebê sabe nascer. A partolândia é mais uma prova disso!


Leia meu Relato de Parto Natural Hospitalar


Fotografias usadas com autorização de Josiane Gonçalves e Priscila Martins
Fotógrafa: Fabiola Coutinho
Edição: Carolina Koplin

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